Frederick Douglass: força e inteligência
- Anna Costa
- 30 de nov. de 2021
- 3 min de leitura

Não consigo imaginar o que pode ser mais destruidor do que o roubo da história e da origem de alguém. Não saber sua idade, qual dia foi seu nascimento, de que lugar e povo veio, que histórias seus ancestrais viveram. Tudo isso aconteceu com milhares de pessoas que foram sequestradas de suas casas, sequestradas por um povo que cometeu diversos tipos de violência em busca de riqueza e domínio. Apesar disso, a história do povo preto sobreviveu através de inúmeras pessoas corajosas e incríveis.
Frederick Douglass foi um desses homens. Nascido em Tuckahoe, no condado de Talbot, em Maryland, foi muito cedo afastado de sua mãe e não tinha ideia da identidade do seu pai, apesar de desconfiar do próprio senhor. Crescer afastado da família já era uma forma de negação da humanidade do outro, mas infelizmente essa não seria a única.
O autor descreve uma enorme quantidade de violências físicas e psicológicas que sofreu e que presenciou com outras pessoas. Alguns relatos são chocantes, mas mais chocante ainda é ver a mesma violência acontecendo todos os dias do nosso lado. Os homens negros são cruelmente assassinados, punidos e enjaulados pelo Estado, e em sua maioria injustamente ou levados por condições absurdas de vida. As mulheres negras se veem sozinhas em jornadas triplas de trabalho para criar seus filhos em ambientes violentos, além do medo de verem seus filhos morrerem. Estou muito longe de viver essa realidade, apesar de ter crescido na periferia, mas o medo que tenho sempre ao ver meu namorado sair para trabalhar nunca para.
Um dos maiores símbolos das dores, segundo Frederick eram as canções cantadas por pessoas escravizadas. Frederick chama nossa atenção para a interpretação equivocada de alguns sobre esse canto ser expressão de felicidade. Lembro da música cantada em um episódio da série Them, criada pela Amazon Prime. A terrível música cantada pela assassina da criança vai causando uma tensão cada vez mais crescente no telespectador.
Frederick não sabia ao certo que idade tinha ao escrever sua autobiografia, o que para nós, viventes do século XXI, parece inconcebível. Na verdade, para pessoas brancas da época, devia lhes parecer assim também. Porém, segundo ele mesmo, sua autobiografia foi escrita mais ou menos aos seus 27 ou 28 anos. Desde muito cedo, Frederick se mostrou ávido em aprender. Começou a questionar sua condição e as violências que tinha sofrido desde seu nascimento. O ato de escrever para pessoas negras já era por si só revolucionário, pois saber ler e escrever levaria a pessoa escravizada a pensar. Foi ao viver em Baltimore que pela primeira vez percebeu que a educação era a saída da sua condição atual, já que era o que os brancos mais temiam. Percebeu depois de ouvir do seu senhor que estudar só o deixaria infeliz, mas ele sabia que isso traria o poder para a liberdade. Até hoje é negado esse direito às pessoas negras. Há um tempo, antes da política de cotas, dificilmente se via pessoas pretas principalmente em cursos considerados de elite. Infelizmente, só abrir a oportunidade de entrada não é o suficiente e muitos ainda desistem.
Frederick Douglass teve sua indomável força colocada à prova ao vivenciar a brutalidade do senhor Covey. Até que, em um momento de coragem, ele o enfrentou. Essa breve vitória o ajudou a acreditar novamente que poderia ser livre. A partir desse momento, nada mais o faria ter a mente escravizada.
Frederick Douglass se tornou um incrível orador, escritor, estadista, diplomata e defensor não só das causas abolicionistas, como também das mulheres. Sua história inspirou inúmeros homens e mulheres a fugirem do Sul em busca de ajuda no Norte. Mas não só isso: ele também ajudou diretamente alguns e algumas a virem pelos túneis da Underground Railroad.
Anna, Agora que vi que tu tens um site! Recebi a notificação por e-mail e achava que era uma newsletter. Vou ler as outras postagens e agradeço pelo contato com o autor! <3 Andie.